Medo da Odebrecht agita Brasília. Deputados perderam a vergonha

    Delação já contabiliza 130 deputados e senadores, 20 governadores e ex, além de prefeitos; Muita gente está perdendo o sono por lá

    Frase da vez

    “Um homem pode agradar e sorrir e não passar de um facínora”

    William Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês (1564-1616)

    Foto: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados.
    Foto: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados.

     

    No calor das discussões sobre a anistia para o caixa 2 o deputado baiano João Gualberto (PSDB) bradou:

    — Se nós aprovarmos um negócio desses (a anistia do caixa 2) a sociedade vai tocar fogo nisso aqui! A desmoralização será total!

    Um outro retrucou:

    — Desmoralizados já estamos. Pelo menos a gente se livra da cadeia!

    Esse foi o clima que predominou na Câmara dos Deputados nesta semana. O medo da delação da Odebrecht, que já contabiliza 130 deputados e senadores, 20 governadores e ex, além de prefeitos, está mesmo tirando o sono de muita gente em Brasília.

    O escancaramento da angústia se deu no projeto Anticorrupção, sugerido pelo Ministério Público, mas enxertado com emendas que anistiam o caixa 2, que alguns queriam aprovar a toque de caixa ontem na Câmara para seguir logo ao Senado.

    Um parecer de 429 páginas que ninguém leu de repente entrou na pauta com pedido de urgência urgentíssima, o que significaria votação imediata. E a pedida foi aprovada por 312 votos a favor, 65 contra e duas abstenções, mas minguou graças aos protestos ostensivos de um grupo de deputados.

    Curioso: entre os que ficaram contra a urgência urgentíssima só um baiano, o próprio João Gualberto, que admite ter enfrentado problemas até com colegas de partido:

    — Ficaram putos comigo, mas por convicção, acho que quem cometeu crimes que responda por eles. Do jeito que eles queriam a sociedade ia tocar fogo no Congresso.

    A votação do projeto foi adiada para terça-feira, mas depois da decisão só outro baiano, Jutahy Júnior, também do PSDB, se pronunciou contra a anistia do caixa 2.

    O fato suscita a pergunta: há tantos conterrâneos com medo da Odebrecht assim?

    Silêncio nas assessorias

    Outro detalhe sintomático: normalmente fartas na produção de releases sobre os feitos dos seus assessorados, as assessorias dos deputados (outros estados inclusos) calaram-se sobre o Projeto Anticorrupção (leia-se caixa 2).

    Só o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), relator distribuiu um. Para dizer-se ostensivamente contra as emendas que perdoam o caixa 2, que ele chama ‘maluquice’.

    O silêncio revela outro detalhe: a tentativa de aprovar uma lei que livra da cadeia os implicados na Lava Jato que ainda serão citados é ato consciente. Estão sabendo o que fazem.