Espetáculo que aborda fraturas sociais, ‘CÃO’ chega a Salvador para temporada especial

    Espetáculo volta ao Nordeste e aporta em Salvador para a última etapa da circulação

    Foto: Renato Mangolin

    A produção de uma cerimônia para empossar o recém-eleito governante de uma jovem república é interrompida por uma notícia inesperada: o líder morreu antes mesmo da posse. Este é o mote dramatúrgico do espetáculo “CÃO” — montagem dos premiados grupos nordestinos Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE), que transforma o caos dos bastidores em uma fábula contemporânea sobre relações de trabalho, exploração, poder e sobrevivência no Brasil atual.

    Após temporadas de sucesso no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, o espetáculo volta ao Nordeste e aporta em Salvador para a última etapa da circulação do Centro Cultural Banco do Brasil. A temporada vai de 18 de junho a 06 de julho, no CineTeatro 2 de Julho, na Federação, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e domingo e segunda, às 19h (*).

    Os ingressos custam R$30 (inteira) e R$15 (meia), com vendas pelo site bb.com.br/cultura. A temporada contará ainda com recursos de acessibilidade — intérpretes de Libras nos dias 21 e 28 de junho e audiodescrição no dia 05 de julho — além de bate-papo aberto ao público sobre a obra.

    Primeira colaboração entre os grupos Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, e Magiluth, de Pernambuco, o espetáculo tem patrocínio do Banco do Brasil, com incentivo da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Com direção de Fernando Yamamoto e Luiz Fernando Marques (Lubi), “CÃO” nasce de uma pesquisa sobre o Brasil atual, suas fraturas sociais, afetos e formas de resistência.

    Em cena, após a morte do líder da jovem república fictícia, assistimos a um grupo de trabalhadores de eventos — técnicos de som e luz, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia, seguranças e operários da maquinaria invisível do teatro — numa maratona exaustiva e dias ininterruptos de preparação para garantir que uma nova posse ocorra.

    A partir daí, instala-se um jogo vertiginoso de ordens contraditórias, protocolos absurdos, pressões políticas e reorganizações impossíveis. Entre correrias, colapsos e improvisos, “CÃO” transforma o caos em linguagem cênica e constrói uma sátira feroz sobre o mundo do trabalho, especialmente sobre aqueles que sustentam tudo, mas raramente ocupam o centro da narrativa.

    Livremente inspirado na tragédia shakespeariana “Coriolano”, o espetáculo não pretende adaptar o clássico inglês, mas atravessá-lo pelas urgências latino-americanas do presente. O que interessa aos grupos é justamente o conflito de classes, a manipulação política, os mecanismos de poder e a precarização da vida contemporânea.