Diretor do Goldman diz que mercado estava certo ao suspeitar que metas fiscais não eram críveis

    Alberto Ramos afirma que governo considera gasto público como um instrumento essencial para o crescimento econômico

    Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

    A mudança das metas fiscais na semana passada prova que o governo deseja gastar mais para aquecer a economia e que o mercado estava certo ao duvidar da trajetória de resultados primários apresentada pelo Ministério da Fazenda, afirma em entrevista ao Estadão/Broadcast, o diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do banco americano Goldman Sachs, Alberto Ramos.

    Durante a entrevista, Ramos alertou que ainda há o risco de uma mudança na meta de 2024, de déficit zero, e até na de 2025, alterada de um superávit de 0,5% do PIB para resultado nulo. E essa incerteza na seara fiscal, segundo o economista, pesa sobre o rating soberano do País.

    “O tema fiscal e o baixo crescimento potencial da economia, o baixo crescimento da produtividade na economia, são os dois fatores que provavelmente atrasam um pouco a obtenção do grau de investimento”, afirma.

    Segundo o Estadão, de acordo com Ramos, a mudança das metas fiscais nunca foi uma sinalização do governo em mostrar disposição para fazer um ajuste fiscal.

    “Esse compromisso nunca existiu de maneira séria. O mercado nunca acreditou, nunca deu valor a esse arcabouço como âncora fiscal. Se o objetivo era que funcionasse como âncora, falhou, porque a percepção do mercado é que vamos ter déficits primários a perder de vista. Essas revisões da meta provam que o mercado estava certo ao suspeitar que as metas não eram críveis”, continua o diretor do banco Goldman.

    O Estadão acrescenta que ao ser questionado sobre a possibilidade de afastamento de investidores estrangeiros após o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmar que o mercado pode começar a se debruçar mais sobre o problema fiscal, devido ao aumento da dívida global, Campos não descartou a possibilidade.

    “Até pode ser que não afaste, mas é um ponto de vulnerabilidade. Se muda o cenário externo e, de repente, há uma preocupação maior com a dinâmica fiscal a nível global, e os juros globais começam a subir por causa de prêmio de risco, isso vai bater no Brasil. E o Brasil, nesse quesito, começa em uma posição de debilidade: tem déficits primários, dívida alta e que continua a crescer e uma carga tributária que já é muito alta. Desde a PEC da transição, a carga tributária tem aumentado significativamente e não para gerar primário, mas para suportar gastos. Isso é complicado porque não resolve o problema e, à medida em que você aumenta a carga tributária, fica com menos margem para lidar com um problema no futuro”, complementa.