Escola de Teatro da UFBA estreia montagem inédita inspirada em Peter Handke

    Espetáculo sem falas propõe experiência sensorial e integra comemorações dos 80 anos da universidade

    Foto: Sora Maia/ Divulgação

    A Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estreia, no dia 30 de abril, o espetáculo “A Hora em que não sabíamos nada da gente”, com direção de George Mascarenhas.

    A montagem inédita em Salvador segue em cartaz até 31 de maio, no Teatro Martim Gonçalves, como parte das celebrações pelos 80 anos da UFBA e 70 anos da Escola de Teatro.

    Inspirada na obra do dramaturgo austríaco Peter Handke, vencedor do Nobel de Literatura em 2019, a encenação propõe uma experiência cênica sem falas, sem narrativa linear e sem personagens fixos. No palco, uma praça se transforma em espaço de passagem, onde figuras surgem e desaparecem, deixando fragmentos de histórias.

    A dramaturgia se constrói a partir de micronarrativas visuais e corporais, nas quais o sentido não é previamente definido, mas elaborado pelo público a partir das imagens, gestos e relações que emergem ao longo da apresentação.

    “É uma peça em que a história não está pronta. O que existe são passagens, imagens e presenças que convidam o público a construir seus próprios sentidos. Cada pessoa assiste a um espetáculo diferente”, afirma o diretor.

    Na proposta de Mascarenhas, a praça concebida por Handke ganha contornos contemporâneos e incorpora referências da Bahia e de Salvador, aproximando a obra de um repertório local. A cidade aparece como ritmo, energia e presença, conectando o texto europeu a uma experiência brasileira.

    Corpo, presença e construção de sentido

    A montagem, realizada pela Companhia de Teatro da UFBA com artistas convidados, tem como base a mímica corporal dramática, linguagem que coloca o corpo no centro da criação cênica. A partir dessa abordagem, o espetáculo valoriza o gesto, a fisicalidade e a composição visual como elementos fundamentais da narrativa.

    Com cerca de 20 atores em cena — entre estudantes de graduação e pós-graduação, professores, artistas convidados e integrantes da comunidade externa —, o projeto também assume caráter pedagógico e extensionista, articulando ensino, pesquisa e criação artística.

    Para a diretora assistente e preparadora de elenco, Deborah Moreira, a montagem amplia a noção de narrativa no teatro contemporâneo. “Trabalhamos com a ideia de presença e escuta do corpo. Não há uma história única, mas múltiplas possibilidades acontecendo simultaneamente. O público é convidado a perceber e construir sentidos a partir dessas camadas”, explica.

    A encenação dialoga com o tempo presente, marcado pelo excesso de informação e pela fragmentação das relações, propondo uma experiência de contemplação e reconfiguração do olhar. “A praça é um espaço de encontro e observação da vida. Ao trazê-la para a cena, criamos um espelho do humano, com suas contradições e encontros”, acrescenta Mascarenhas.

    Nesta leitura, o texto de Handke ganha uma abordagem autoral que destaca o corpo como linguagem e propõe uma experiência estética que transita entre o poético, o cotidiano, o absurdo e o sensível.

    Além do espetáculo, o projeto resulta de um processo formativo que incluiu workshops e laboratórios de criação, reafirmando o papel da universidade pública como espaço de produção de conhecimento, experimentação artística e formação. A temporada também prevê ações de ampliação de acesso e diálogo com diferentes públicos, reforçando o compromisso da UFBA com a democratização cultural.