‘Namíbia, Não!’ celebra 15 anos e retorna a Salvador com novas sessões

    Espetáculo escrito por Aldri Anunciação e dirigido por Lázaro Ramos inspirou o filme 'Medida Provisória'

    Foto: Victor Balde/ Divulgação

     

    O aclamado espetáculo Namíbia, Não!, escrito por Aldri Anunciação e dirigido por Lázaro Ramos, retorna ao Teatro Sesc Casa do Comércio, em Salvador, nos dias 14 e 15 de abril.

    A montagem, que já conquistou mais de um milhão de espectadores no Brasil e em países como Portugal, Inglaterra e Alemanha, celebra 15 anos de trajetória com duas únicas sessões, sempre às 20h. Sujeitos à lotação, os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.

    Sucesso de público e crítica, a peça deu origem ao filme Medida Provisória (2022) e ao livro homônimo vencedor do Prêmio Jabuti em 2013. A nova temporada traz em cena os primos Antônio, interpretado por Aldri Anunciação, e André, vivido por Jhonny Salaberg, no centro de uma narrativa marcada pelo confinamento e pela tensão política.

    A trama imagina um Brasil que determina a deportação compulsória de pessoas negras para países africanos, uma medida chamada na história de “Medida Provisória”. A montagem chega a Salvador reunindo vozes marcantes da dramaturgia brasileira em participações em off, que atravessam quase duas décadas da história do espetáculo.

    Entre elas estão Wagner Moura como o “Ministro da Devolução”; Léa Garcia como a “Mãe Idosa”; Suely Franco como Dona Araci; Pedro Paulo Rangel como Seu Nina; e o próprio Lázaro Ramos como Seu Machado.

    Segundo Aldri Anunciação, o desenho dessas vozes é parte fundamental da dramaturgia da obra. “O espetáculo trabalha com um desenho de vozes — vozes ‘fantasmas’ e vozes muito reais — que pressionam as personagens por dentro da narrativa. Uma dessas vozes é a voz do poder, uma voz opressora que determina a execução da medida provisória, essa ideia brutal de exigir que pessoas negras ‘retornem’ à África em pleno século XXI”, afirma.

    Para o autor, a presença de atores como Wagner Moura fortalece a construção dessa figura de autoridade dentro da trama. “Ele empresta à personagem um timbre de autoridade e uma densidade interpretativa que tornam o dispositivo ainda mais forte”, comenta.

    No palco, Aldri divide cena com Jhonny Salaberg, conduzindo o público por momentos de humor que se misturam a reflexões sobre racismo, identidade e reparação histórica. Na narrativa, os cidadãos classificados como de “melanina acentuada” passam a ser alvo da política estatal fictícia.

    O termo, explica o dramaturgo, surgiu dentro da própria obra como um recurso crítico. “Em um momento em que se discutia muito como nomear a negritude, eu criei a expressão ‘melanina acentuada’. Ela desloca a conversa do rótulo para o mecanismo do racismo e lembra que melanina é um elemento biológico humano em diferentes gradações”, afirma.

    Foto: Victor Balde/ Divulgação

    Dos palcos para os livros

    A força da obra ultrapassou o teatro. Em 2012, o texto de ‘Namíbia, Não!’ foi publicado em livro pela editora Edufba, após o próprio autor perceber que parte do material original havia sido cortada durante o processo de montagem da peça para garantir ritmo e fluidez em cena.

    No ano seguinte, a obra conquistou o primeiro lugar na categoria juvenil do Prêmio Jabuti. Desde então, o texto passou a circular amplamente em escolas públicas por meio de programas de distribuição do Ministério da Educação.

    Aldri afirma que esse reconhecimento ampliou o alcance da obra. “Quando ganhamos o Jabuti, entendi que não era apenas um espetáculo bem-sucedido. Era uma narrativa capaz de atravessar linguagens, entrar em bibliotecas, escolas, universidades e mesas de debate”, diz.

    Foto: Victor Balde/ Divulgação

    Da peça ao cinema

    A história também ganhou nova dimensão com a adaptação cinematográfica. Dirigido por Lázaro Ramos, o filme Medida Provisória levou a trama para as telas de cinema e se tornou a segunda maior bilheteria nacional de 2022.

    A adaptação exigiu mudanças significativas na estrutura da narrativa, originalmente centrada no confinamento dos protagonistas. “O mais difícil foi sair do confinamento. A peça acontece basicamente dentro de um apartamento, então expandir esse universo foi o nosso maior desafio como roteiristas”, explica Aldri.

    O longa conta com um elenco que inclui Taís Araújo, Seu Jorge, Alfred Enoch, Adriana Esteves, Renata Sorrah e Emicida.

    Para o dramaturgo, o sucesso da obra é resultado de um esforço coletivo que atravessa diferentes linguagens e gerações. “Quando vejo a obra sendo lida e assistida por pessoas muito jovens, penso que é possível, quando nos juntamos ao coletivo, produzir uma pequena mudança, uma fricção crítica que realmente opera”, conclui.

    O espetáculo ‘Namíbia, Não!’ é realizado pela Melanina Acentuada Produções, com apoio do Sesc Bahia.