‘Faz parte do racismo achar que os negros não fazem cultura’, diz Tonho Matéria

    O artista falou sobre a quase não inclusão da Capoeira na Lei Aldir Blanc que irá auxiliar o setor cultural durante a pandemia

    Foto: Gilmar Souza

    Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a Capoeira passou perto de não ser incluída na Lei Aldir Blanc, que prevê auxílio emergencial para o setor cultural durante a pandemia do novo coronavírus.

    O Projeto de Lei 1.075/2020, que foi aprovado no Senado Federal no dia 4 de junho e segue para sanção presidencial, determina o repasse de R$ 3 bilhões para serem utilizados em ações emergenciais de apoio ao setor cultural.

    O assunto foi abordado pelo cantor cantor, compositor, mestre de capoeira, publicitário e diretor da Associação Cultural de Capoeira Mangangá, Tonho Matéria, na live desta terça-feira (8) com o bahia.ba.

    Durante o bate-papo, disponível em vídeo no Instagram do bahia.ba, o artista falou sobre a necessidade de reafirmar a todo tempo a importância da Capoeira para a construção da identidade baiana e brasileira.

    “É triste porque isso já faz parte do racismo, de achar que tudo que os negros fazem não é cultural ou então ele deixa de ser cultura para ser folclore (no sentido de lendas). Quando você pede a apresentação nas escolas, só querem a capoeira como figuração ou como folclore, mas muitas vezes não dão espaço para os capoeiristas”, afirma o músico.

    Para Tonho, a Capoeira deveria ser incluída nos currículos escolares como uma disciplina para que a identidade não seja esquecida ao longo dos anos.

    “Se todas as escolas tivessem capoeiristas, o mundo seria diferente. Nós temos hoje diversos capoeiristas qualificados para dar aula nas escolas e em qualquer espaço, mas infelizmente, o mesmo estado que reconhece a capoeira como patrimônio cultural do Brasil, é o estado que nos nega, a gente teve que fazer uma frente para lutar”.

    O artista criticou ainda a falta de representatividade dos negros no poder e citou como exemplo o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, que não luta pelos mesmos direitos que o movimento exige.

    “Colocam uma pessoa que não pensa na cultura e a gente está tentando ver se tira esse cara, porque temos tantas outras pessoas que conhecem realmente o papel da Fundação Palmares, que fala justamente sobre a resistência de Zumbi, de Ganga Zumba, de Acotirene, de Dandara, tantos homens e mulheres negros que estiveram ali naquele lugar em sua época, lutando contra o racismo, o fascismo. Em 1888, o Brasil declara a Lei Áurea e o que deram para essa negrada? Não deram nada, várias leis foram criadas para proibir cada vez mais o processo da cultura negra no Brasil, mas não adianta”.