Onyx posta vídeo criticando ‘tiranetes’, mas exalta parceria com ditadura saudita

    Arábia Saudita é um dos países com maiores restrições às mulheres e à liberdade de imprensa do mundo

    O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), compartilhou nesta quarta-feira (8) em seu perfil no Twitter um vídeo em que celebra um suposto “resgate do respeito mundial” do governo brasileiro, afirmando, na legenda da publicação, que o Brasil não possui mais relações com “ditaduras e tiranetes”.

    “Nossas relações são com as nações mais desenvolvidas do mundo”, afirma o ministro, ressaltando que o Brasil “é um país que respeita a liberdade”.

    Entre estas “nações mais desenvolvidas do mundo”, contudo, estão países que mantêm regimes francamente antidemocráticos, como a China, o Egito e a Arábia Saudita. Os sauditas ainda são celebrados no vídeo institucional como um importante parceiro, que investiu R$ 10 bilhões de seu fundo soberano no Brasil.

    Apesar de ser classificada pelo democrata como uma “nação livre”, a Arábia Saudita pode ser classificada, sob diversas análises, como uma “ditadura” governada por “tiranetes”: trata-se de uma monarquia absolutista – em que o rei cumpre o papel dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário – que exerce enorme controle à imprensa e às mulheres.

    A Arábia Saudita é, por exemplo, o único país do mundo que utiliza um livro religioso – o Alcorão – como Constituição e um dos poucos que não reconhecem a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Além disso, os sauditas ocupam a 172ª posição entre 180 países no ranking de liberdade de imprensa realizado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras.

    Segundo as leis islâmicas da sociedade saudita, é proibido às mulheres dirigir; andar na rua desacompanhada do marido, pai ou parentes; e possuir conta bancária ou cartão de crédito sem autorização do esposo ou do pai.

    Os governantes do país são “tiranetes” legítimos: em setembro do ano passado, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, assumiu a “total responsabilidade” pela morte do jornalista Jamal Khashoggi, ainda que tenha negado ter ordenado sua execução.

    “Este foi um crime hediondo. Assumo total responsabilidade como líder da Arábia Saudita”, afirmou durante uma entrevista exibida pela rede de TV americana CBS.

    Uma investigação da ONU, porém, concluiu que o príncipe herdeiro foi o mandante do assassinato. Crítico ao governo saudita, Khashoggi foi morto dentro do consulado de seu país em Istambul, na Turqui – as Nações Unidas classificaram o crime como um “um assassinato extrajudicial pelo qual o Estado da Arábia Saudita é responsável sob a lei internacional dos direitos humanos”.

    Mesmo após essas revelações, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou possuir “certa afinidade” com o saudita na ocasião em que se encontrou com ele, em outubro, em Riad, na Arábia Saudita.

    “Acho que todo mundo gostaria de passar uma tarde com um príncipe, principalmente vocês, mulheres. Vou ter essa oportunidade hoje. Nós dois temos certa afinidade”, disse o chefe do Executivo brasileiro, à época.